O compromisso de terminarmos o PBP juntos

Manuel Miranda
Randonneurs Portugal Nº201310091
Paris Brest Paris 2015

Sábado, 15 de agosto – Bike check

É o primeiro contacto local com a organização do PBP; aqui apercebo-me da verdadeira dimensão do
evento e não há dúvida que todos os pormenores estão previstos. Bike check ok, assino um papel e
saio do velódromo de Saint Quentin-en-Yvelines (SQY) com várias placas referindo o número H189, o brevet propriamente dito, um colete, um bidon, etc. Sinto que algo já começou.

Regresso ao hotel onde há outros randonneurs instalados e a azáfama é grande; de qualquer caixa sai
uma bicicleta. Fixo cuidadosamente as placas identificativas na minha bicicleta: uma para ser vista de
frente, outra para ser vista do lado e outra para o capacete.

Considerando as previsões metrológicas, decido as últimas questões relacionadas com o vestuário,
faço as últimas verificações e fecho definitivamente o alforge.

O próximo compromisso é às 17:00 horas junto ao velódromo, para atender a uma sugestão do Pedro,
para uma foto do grupo de randonneurs portugueses presentes neste PBP.

PBP_2015_Manuel_Miranda_Paris

Domingo, 16 de agosto

Terminado o prolongamento do sono desta manhã, sairei do hotel de bicicleta e já equipado, para um
almoço tardio nas imediações do velódromo. Tenho saída marcada para as 17:45 h e o compromisso
de me apresentar 1:00 hora antes. O tempo passa muito depressa e rapidamente o grupo H estava prestes a sair.

Muito público presencia a passagem dos ciclistas quer junto ao velódromo, quer ao longo das estradas,
contudo aguardamos a ordem de saída num espaço longe do público. De um momento para outro,
ouve-se algo que desencadeia um remexer das bicicletas à minha volta e começamos todos a avançar
lentamente e o parque fechado vai-se transformando num corredor com um pórtico, muito público e
estávamos então a passar frente à entrada do velódromo que rapidamente fica para trás com as
bicicletas a alongarem-se, agora já na estrada.

As etapas: a partir daqui a descrição está dividida em etapas, que correspondem aos ciclos do sono que aconteceram.

Etapa 1

Sem sprints, a média é alta; nas estradas em linha reta valido a minha posição no grupo: há ciclistas a
perder de vista para trás e para a frente, o que me sossegou, pois seria “só” manter aquele andamento durante os próximos 1.220 km!

Decorridos cerca de 25 km, detetei, nos pisos mais irregulares, um “batimento novo” perto da roda de
trás. Numa passadeira sobre-elevada, deliberadamente, avancei em velocidade e tive a certeza que
havia um problema lá atrás; o melhor é parar para avaliar. Com bicicletas vindas de várias partes do
mundo na minha roda, anúncio que vou parar, aproximando-me da berma.

De imediato percebo o que se passou: uma adaptação para fixar o alforge ao suporte havia cedido de
forma irremediável. O alforge está completamente solto e não poderei continuar assim. As hipóteses
são: Ou terminar o brevet ali; ou deixar o alforge e continuar sem muda de roupa e ferramentas até
onde conseguisse, ou tentar fixa-lo provisoriamente (com uma peça de roupa a servir de fita de aperto) até ao próximo posto de controlo (220 km).

Os ciclistas continuavam a passar, alguns ao verem-me parado com o alforge aberto e as ferramentas
fora, comentavam algo em línguas desconhecidas e continuavam. Fixei o alforge o melhor que pude e
regressei à estrada, com cuidado pois os ciclistas continuavam a passar; reparo no entanto nas placas
de identificação e percebo que não são da série H, como eu, mas da série J, mas não me importo pois
são igualmente todos desconhecidos e a partir daqui serão estes os meus vizinhos do PBP se mais nada
de grave acontecer.

A noite avança e vejo justificada a opção de saída com a roupa da noite, apesar dos 22º C à hora da
saída. O percurso segue quase sempre por estradas sem iluminação e sobretudo nas descidas a minha
luz mostra-se insuficiente, exigindo algumas cautelas.

Os postos de controlo são também sítio de abastecimento onde se pode comprar desde uma sandwich
a uma refeição completa com entrada, prato e sobremesa. Apesar da boa sinalética de Posto de
controlo, Restaurante, Bar, Wc, Parque, Banho, Dormitório, Mecânico, etc, ficar por aqui leva à perda
de muito tempo, sobretudo quando estão dispersos por extensas áreas, o que é frequente.

Tenho planeado dividir o brevet em 3 ciclos de descanso, mas também irei decidir em função das realidades que for encontrando. Fiz uma pausa para almoçar e já regressei à estrada, a tarde está
quente; vêem-se ciclistas a fazerem uma sesta. Concordo com a “sugestão” e na próxima oportunidade irei parar. É ali, retirado da estrada, debaixo de um carvalho, uma mesa de madeira e dois bancos corridos de cada lado, junto a um pequeno lago. Adormeci. Acordo com o barulho de outros ciclistas a acomodarem-se na sombra do carvalho; fico a ouvi-los e apercebo-me que há um espanhol entre eles; fiquei mais um pouco, mas contrario o corpo, e preparo-me para continuar.

PBP_2015_Manuel_Miranda_caminho

 

Retomo a estrada e sem ter a certeza de quanto tempo estive parado, atualizo os valores de hora do
dia, km percorridos, km até próxima pausa (527), para ir refazendo mentalmente os cálculos. Sendo este brevet um ir e vir a Brest, chegar a Brest assume uma importância “psicológica” grande, mas nunca deve sobrepor-se ao que for mais adequado decidir em função dos níveis de fadiga e horas de percurso no ciclo de sono.

Por outro lado a chegada a um posto de controlo representa sempre um “despertar” da monotonia da estrada e daí uma leitura mais favorável dos níveis de fadiga instalados. Penso que por isso, e dado já ter feito uma sesta após o almoço, em Carhaix-Pleuguer, km 527, decido continuar para dormir em Brest. Seria um percurso noturno, faria várias pequenas paragens nas localidades.

Na verdade o percurso entre Carhaix-Pleuguer e Brest, mostrou-se muito despovoado, a estrada sem
iluminação, a noite fria e com muita humidade, fez com que Brest ficasse a mais horas do que parecia.
Contudo com a chegada a Brest, o nascer do sol e um pequeno-almoço quente, a vontade de pedalar
voltou. Agora já no sentido Brest Paris, os ciclistas observam-se e pela identificação é possível concluir acerca do atraso ou não dos que seguem em sentido contrário.

Tenho então decidido chegar a Carhaix-Pleuguer, km 701, tomar banho, almoçar e dormir. Finalmente
chego a Carhaix-Pleuguer, ainda tenho a memória fotográfica da placa indicando Banhos e Dormidas.
Banho tomado, decidido o menu de almoço rapidamente na linha do self service, há que almoçar e
atender a necessidade de descanso que se impõe.

PBP_2015_Manuel_Miranda_Paris_noite

Etapa 2

Restabelecida algum descanso, ainda com a luz da tarde, é tempo de ir andando para o posto de
controlo de Loudeác, pois o tempo limite para controlar já não é muito e pode haver algum problema
na viagem, e já gastei algum tempo a reforçar o improviso da fixação do alforge que irá ter de
continuar assim provisório. Saio de imediato, pois tenho decidido (alterando o plano inicial) terminar a
etapa em Tinténiac, km 868, pelo que feitas as contas irei pedalar bastante de noite, que resulta em
médias mais baixas e receio que a noite seja muito fria como a anterior a caminho de Brest.

Chegado a Tinténiac, a primeira dificuldade é, como de costume, arranjar um espaço para encostar a
bicicleta. Enquanto vou avançando À procura de um lugar, encontro devidamente aparcada, com todos os componentes recolhidos, capa de banco colocada, capa de alforge aplicada, a bicicleta do José Ferreira. Não procuro mais lugar; encosto a minha bicicleta à dele e como sairá primeiro do que eu, saberá que cá estou. Faço o registo, atribuem-me uma cama e marco para ser acordado às 5:00 horas. O quarto é partilhado por mais três pessoas. Tudo se manteve sossegado e não foi difícil adormecer, até que somos acordados com a indisposição de estômago de um dos colegas do quarto.

Reparo que há muita luz lá fora e de imediato alguém diz “eight hours”. Verificando se o colega que está indisposto precisa de ajuda, ele diz-nos que podemos ir, pois apenas pretende ficar mais um pouco; Saímos os três apressados, como se tivéssemos dormido demais. Procuro a zona de refeições e apresso um pequeno almoço adequado aos maus hábitos, pois é grande a diversidade de costumes dos presentes no salão de refeições: há gente a comer sopa e carne com massa ao pequeno almoço e outros uma coca cola ou um chá

Etapa 3

Dou uma olhadela aos quilómetros: 868, às horas: é tarde e aos quilómetros que faltam – caberão
todos numa etapa? Vamos ver!

O dia vai avançando e os postos de controlo também; há agora 4 dígitos no totalizador de km percorridos e tenho claro que devo manter o plano e dormir mais uma vez, não será em Mortagne-auPerche, mas em Dreux.

Muitos ciclistas optaram por pernoitar em Dreux, e apesar do pavilhão (dormitório) estar totalmente
ocupado, ainda foi possível alocarem-me 1 m2 onde me instalei. Fiz até agora 1.166 km sem furar; faltam 65 km. Ao contrário do Portugal na Vertical, irei terminar sem furar? Tenho também presente a
hora limite para o controlo de chegada 11:45h. Em função de tudo isto preciso decidir a hora de saída.

Etapa 4

Estava combinado com o José sairmos juntos, mas de manhã reformulamos e eu saí primeiro, cerca das 6:00 horas, embora mantendo o compromisso de terminarmos o PBP juntos.

PBP_2015_Manuel_Miranda_chegada

 

As primeiras bicicletas ainda encontram muitos ciclistas acomodados de alguma forma nos locais mais improváveis, em pleno sono, ao longo da estrada para Paris, apesar de ter começado a chover. A chuva manteve-se até SQY, até que surge o velódromo que tinha-mos deixado cerca de 88:00 horas antes e onde estava instalado o último posto de controlo e a família à espera. Era o final do mais longo percurso que fiz de bicicleta.

Terminaram todos os 10 portugueses que se deslocaram a França para esta participação.

Neste PBP…

  • Correu bem
    A revisão à bicicleta e a colocação de uns pneus novos; tudo deve estar testado com antecedência, sobretudo acessórios que vamos acrescentando à bicicleta, como alforges sacos, etc, pois todos os pormenores são importantes e também a organização e acesso ao material que vamos precisando, que agora disporia de outra forma
  • O meu pior momento
    O percurso noturno entre Carhaix e Brest, para o evitar, deveria ter dormido antes desta etapa. Devido a uma aparente disponibilidade para continuar a pedalar, acabei por gastar mais tempo e descansar menos
  • O melhor momento
    Readquirir a confiança depois do banho e dormir
  • Os aspetos mais importantes para garantir a chegada
    Não haver falhas mecânicas e manter uma média de andamento acima dos 20 km/h,  nvestindo o tempo restante em descanso reparador; Encontrar o ritmo de andamento/descanso que permita a  regeneração, tornando-se capaz de continuar além dos 1.200 km se necessário fosse
  • Aspeto a evitar
    Não andar acima do seu andamento de conforto

  • Se começasse agora
    Faria um plano mais fundamentado, logo o seguiria com mais rigor, e teria mais em atenção os ciclos de sono

  • Quem quiser ir pela primeira vez ao PBP
    Sugiro que faça saídas longas e vários BRM de 400 km a 1.000 km; Tenha uma abordagem para a gestão dos ciclos  de sono

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